A Polícia Federal costuma batizar suas operações com nomes que carregam significados simbólicos, históricos ou linguísticos, muitas vezes fazendo alusão direta ou indireta aos fatos investigados. Não se trata apenas de um rótulo: o nome frequentemente dialoga com o objeto da apuração, com o contexto dos crimes ou com a mensagem institucional que se pretende transmitir à sociedade.
Foi assim em diversas operações que marcaram o combate à corrupção no país — e não parece ser diferente no caso da Operação Mederi, que cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a suspeitos de integrar um esquema de desvios de recursos públicos na área da saúde.
Do ponto de vista etimológico, mederi vem do latim e significa “curar”. Uma possível interpretação é que a operação remeta à ideia de que combater o desvio de verbas da saúde pública é uma forma de “cura” da população ao permitir que recursos destinados à compra de medicamentos e ao atendimento da população cheguem, de fato, a quem precisa.
No entanto, outro aspecto do nome da operação tem chamado atenção nos bastidores políticos. “Mederi” guarda forte semelhança fonética com “Medeiros”, sobrenome do atual vice-prefeito Marcos Medeiros Bezerra, seu primo e nome da cozinha do prefeito Alisson, escolhido pessoalmente para compor a chapa, apesar de não possuir, à época, expressão eleitoral própria ou base política consolidada.
Marcos Medeiros Bezerra, além de vice-prefeito, é primo do prefeito e exercia o cargo de secretário adjunto de Saúde no período em que, segundo as investigações, teriam ocorrido os supostos esquemas envolvendo pedidos de propina e distribuição de valores ilícitos.
Nos trechos da decisão judicial que autorizaram as medidas cautelares, um diálogo entre sócios de uma empresa investigada chama a atenção. Segundo os autos, eles reclamam de pressões insistentes vindas de alguém ligado à estrutura da Secretaria de Saúde, possivelmente ocupante de cargo relevante na hierarquia administrativa. Em determinado momento, um dos sócios, em tom de irritação, teria afirmado: " Se fosse eu, eu dizia(sic) o prefeito é ladrão "— conforme registrado no processo — que estavam sendo excessivamente cobrados, sugerindo que a insistência pelo sigilo tornava explícita a percepção de corrupção no alto escalão.
Diante desse contexto, surgem questionamentos inevitáveis. Quem seria a pessoa da estrutura da Secretaria que pressionava para que “ninguém descobrisse” e para que tudo fosse tratado com cautela? O próprio Marcos Medeiros? Teria relação com a função exercida à época pelo então secretário adjunto? E o nome da operação, Mederi, seria apenas uma referência simbólica à saúde pública ou carregaria também um recado indireto ligado a um personagem central do poder municipal?
São perguntas que permanecem em aberto e que, inevitavelmente, ganham relevância política diante do fato de que Marcos Medeiros deverá assumir a Prefeitura. As respostas, naturalmente, caberão às investigações e ao Judiciário. Mas o simbolismo do nome escolhido pela Polícia Federal, como tantas outras vezes na história, segue alimentando debates e interpretações nos meios político e jurídico.










