quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Quantas pessoas deixaram de receber medicamentos? Quantas morreram?


Cuidar, tratar. Palavras derivadas do verbo mederi, em latim, e que tem origem em outra: medicina. Este suposto entrelaçar veio à tona com a operação Mederi, realizada no Rio Grande do Norte e com foco em cidades potiguares. Pela investigação da Polícia Federal, baseada em dados da Controladoria-Geral da União (CGU), por aqui existiria esquema de corrupção, com desvio de verba pública destinada à área da saúde. Especificamente na aquisição de medicamentos, cuja ação previa licitação e posterior contrato de empresas.

A Controladoria-Geral da União constatou falhas na execução contratual, apontando para suposto esquema de desvio de recursos públicos que atendiam nomes específicos, dentre eles o prefeito Allyson Bezerra (União Brasil). Pelo que se divulgou, algo em torno de R$ 400 mil, dos quais apenas R$ 130 mil se voltavam para a sua finalidade. Maior parte da verba seguia uma divisão, sendo que ao prefeito foi atribuído valor de R$ 60 mil.

Com base nestes detalhes, a Polícia Federal cumpriu 35 mandados de busca e apreensão em Mossoró e outras cidades do Rio Grande do Norte. Foi apreendido dinheiro em uma caixa de isopor, além de notebooks, celulares e drives externos.

Feito essa reapresentação do caso, vem agora o x da questão. Se estava havendo, por mês, desvio de R$ 270 mil, quanto, efetivamente, foi desviado ao longo dos anos? Quantas pessoas deixaram de receber medicamentos nesse período? E o mais grave: quantas pessoas morreram? Se morreram, implica dizer que, diferente do que muitos dizem, o valor da vida seria correspondente ao que teria sido desviado ao longo dos anos.

Para complicar ainda mais a situação, moral e ética, o prefeito mossoroense, quando questionado por uma emissora de tv da capital se teria o "rabo preso" com as denúncias, ele começou a resposta com "o sistema é bruto". E aqui cabe um comentário: o sistema não é bruto. Ele (sistema) busca a retidão e evitar que pessoas de baixa renda e que, na maioria dos casos, estão quase na exclusão social e distante de políticas públicas, pereçam em decorrência de desvio de conduta.

Em outros momentos, ainda na capital do Estado, o prefeito disse que havia descentralizado o poder e que seus secretários tinham autonomia sobre contratos, bem como os servidores que cuidam de processos licitatórios. Com isso, o prefeito passa a culpa, diretamente, para a sua equipe. E certamente todos serão ouvidos. 

Mas também cabe questionamento: como um prefeito não tem conhecimento do que ocorre à sua volta? É de se estranhar que, diante de tantas denúncias envolvendo falta de medicamentos, a luz da incerteza não tivesse sido acesa no gabinete do Palácio da Resistência. E se ele realmente não sabia, o que danados está fazendo na Prefeitura? Afinal, alguém tem que administrar, e se não é o prefeito, quem está por trás?

O prefeito acabou recorrendo a algo que se viu, bastante, no cenário brasileiro, e tentou emplacar o uso de instituições como a CGU e Polícia Federal para fins políticos. "É ano eleitoral", tentou ensaiar. Contudo, desqualificar investigações é o primeiro passo... A história recente do País mostra bem isso.

Muita coisa não casa. E aqui não se diz que o prefeito é culpado. Apenas levantando dúvidas sobre uma administração que ele dizia ser a "bam,bam,bam", a que era maior em tudo. Agora, pela primeira vez na história de Mossoró, a cidade acompanha uma investigação que pode render, e muito, contra um prefeito que quer chegar ao Governo do Estado.

É algo que seus adversários, certamente, vão questionar: se, enquanto prefeito de Mossoró ele não dava conta do que acontecia, como vai administrar um Estado que tem uma estrutura bem maior que a Prefeitura da segunda maior cidade potiguar?

De certo, apenas uma coisa: a saúde de Mossoró não está cuidando nadica de nada das pessoas. Se tivesse, não estaria acontecendo esse escândalo.


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