segunda-feira, 20 de junho de 2011

‘Chuva de bala no país...’ é de Rodolfo Fernandes e Jararaca

O belo representa a verdade, na tese platônica, o que caracterizaria uma nova onda de verdades, já que a beleza depende dos olhos que a enxergam. Essa afirmação pode ser aplicada ao teatro? Em tese, claro. E foi isso que o teatrólogo João Marcelino fez ao propor algumas alterações no “Chuva de Bala no País de Mossoró”, que continua em cena no adro da capela de São Vicente até o próximo dia 29. Destacam-se, nesta décima edição da peça, alguns novos elementos cenográficos, o figurino, bem como “Tonho”, “Tontonho” e “Toinho”. Além disso, duas gratas surpresas: o professor Aécio Cândido de Souza, vice-reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), no papel do prefeito Rodolfo Fernandes, e o ator Danilo Souza, que interpreta Jararaca.

A encenação remonta ao dia 13 de junho de 1927, quando Lampião e cangaceiros tentaram invadir Mossoró. O resultado é o que a história mostra e o que o “Chuva de bala no país de Mossoró apresenta”: sequestro, sangue e morte.

Da abertura ao final, as modificações feitas por João Marcelino foram acertadas. A presença dos narradores com um misto de homem do campo com arte mambembe garante bons momentos ao longo do espetáculo. Realmente uma boa sacada do diretor.

De negativo, se é que pode ser adjetivado desse jeito, apenas em um aspecto: Lampião. Quem estava acostumado a assistir ao ator Dionízio do Apodi dar vida ao cangaceiro, em edições passadas, ficou um pouco decepcionado com o rendimento do ator Jeyzon Leonardo. Não que ele não tenha potencial para tanto. Claro que tem, mas é que em alguns momentos o ator fica, digamos, sem presença de palco. Algumas frases que antes faziam a diferença, como “...menino, que alvoroço é esse?”, por exemplo, passaram despercebidas pelo público.

Mas pode ter sido opção do diretor. Para mudar e dar uma nova vida ao personagem. Afinal, o público estava acostumado com um Lampião mais ousado e arredio. Apesar disso, Jeyzon tem bons momentos no papel e, como é a primeira vez que interpreta Lampião, poderá melhorar substancialmente na próxima edição.

Uma outra boa intervenção da direção diz respeito à cena das viúvas. Visualmente, foi uma mudança em cheio. Elas aparecem no momento em que Jararaca é assassinado e, entre lamúrias, entoam a Oração do Livramento. Tipo para dar vazão à crença popular de que o cangaceiro teria feito milagres depois de morto. A oração faz jus ao nome: para livrar do perigo e, no caso de Jararaca, para que Deus perdoe seus pecados e o guie para o bem. Faz sentido.

SURPRESAS

Já haviam falado que o vice-reitor da Uern, professor Aécio Cândido de Sousa, era um ator, como se diz, de mão cheia. Apesar de ele ter se apresentado no Auto da Liberdade, anos passados, seu potencial artístico ainda não havia sido posto em prova. E ele fez jus ao título dado por Crispiniano Neto: “Aécio é um excelente ator”. E realmente é.

Aécio está perfeito no papel do prefeito Rodolfo Fernandes. Expressões e falas estão casadas. Até parece que não existe play-back. Por sinal, os demais atores também têm essa casadinha.

Quando é a vez de Jararaca centralizar a cena, o ator Danilo Souza dá conta do recado. Tanto que, da plateia, alguém comentou ao meu lado: “Tadinho do Jararaca”. Fruto da boa interpretação de Danilo. Diria que o “Chuva de bala no país de Mossoró”, sem ofender ou menosprezar os outros atores, é de Rodolfo Fernandes e Jararaca.

Um comentário:

Mônica Danuta disse...

se fosse para manter o mesmo '...menino que alvoroço é esse?...' acho que o diretor teria mantido o mesmo ator!

muda ator, consequentemente muda forma de interpretar o personagem...

aprecie novas leituras!

:)