segunda-feira, 22 de julho de 2013

‘O Brasil não pode ser só o país das bolsas’

A voz das ruas ecoou no Congresso Nacional e atingiu o Palácio do Planalto. De todas as partes do Brasil, o sinal de aviso foi um só: o povo quer mudanças em setores cruciais da sociedade, como saúde, educação e segurança, além de melhorias concretas na questão relacionada à mobilidade urbana. Oposição e governo travam batalha aberta, mas os dois querem o mesmo: que as alterações propostas pela população sejam debatidas e realizadas. Uma delas diz respeito à reforma política, tema evidenciado pela presidenta Dilma Rousseff (PT) no auge das movimentações populares. Para o presidente nacional do Democratas, senador potiguar José Agripino Maia, o tema representa importância, mas a reivindicação do povo vai além disso. Apesar de reconhecer que a reforma seria interessante, o democrata classifica a manobra da presidenta como oportunista: “Para mim, uma manobra claramente diversionista, já que, naquele momento, a pauta da sociedade era mobilidade urbana, preço de transporte coletivo, metrô que não existe, hospital superlotado, saúde inexistente, educação de má qualidade, corrupção. Isso, sim, é o que a sociedade estava e está clamando nas ruas.” Nesta entrevista, José Agripino fala desse e de outros temas, como o fato de o Brasil ter apostado, ao longo de 18 anos, em bolsas sociais para reduzir as desigualdades. Ele enfatizou que Dilma Rousseff errou ao se apresentar como uma administradora “infalível e dona da verdade. “Governa um governo inchado, com gerentes de qualidade duvidosa e pressupostos econômicos equivocados.”


JORNAL DE FATO – A reforma política voltou ao cenário político nacional depois das recentes manifestações populares em todo o Brasil. Para o senhor, por que somente agora a presidenta Dilma Rousseff nutre interesse em discutir o tema?
JOSÉ AGRIPINO – A reforma política é um debate que se impõe, sem sombra de dúvida, no cenário nacional. Nós tentamos, durante anos, aprová-la no Congresso, mas a própria base do governo do PT sempre impediu a continuação da tramitação da matéria. Surpreendentemente, após as manifestações que tomaram conta das ruas do País, a presidente Dilma Rousseff ocupou a rede nacional de televisão para propor um plebiscito sobre reforma política. Para mim, uma manobra claramente diversionista, já que, naquele momento, a pauta da sociedade era mobilidade urbana, preço de transporte coletivo, metrô que não existe, hospital superlotado, saúde inexistente, educação de má qualidade, corrupção. Isso, sim, é o que a sociedade estava e está clamando nas ruas. Mas, entendo que a reforma política é tema importante, e agora, com o repentino interesse do governo, vamos tentar aprovar seus principais temas.

A IDEIA do plebiscito com validade para 2014 foi defendida pela presidenta. A Câmara Federal já avisou que não se terá tempo para discutir o assunto. Qual seria a melhor maneira para atender a massa?
MEU partido sempre defendeu uma consulta popular consequente, em que o povo possa opinar com conhecimento de causa. Por isso, apoiamos um referendo. Ou seja, abre-se o debate entre todos os partidos no Congresso – que tem a prerrogativa para fazer a reforma –, explicando suas posições com relação à lista fechada, a voto distrital misto, à cláusula de barreira, a financiamento público de campanha para, de discurso em discurso, gerarmos notícias que cheguem às pessoas. Isto é, pelo nosso debate, leva-se à consciência dos brasileiros o que significa cada tema – hoje, não muito bem conhecido pelo cidadão comum – na profundidade que precisa ter, para que ele possa opinar, aí sim, em um referendo.

ALIADOS do governo afirmam que a oposição está atordoada e que não compreende o que vem das ruas, dos recentes protestos. Para o senhor, o que está acontecendo?
AS MANIFESTAÇÕES das ruas atingem a classe política como um todo, não apenas a oposição ou o governo. A população, que anda inquieta, e com toda razão, dá demonstrações claras de que não está satisfeita com a democracia representativa, com seus eleitos, sejam governadores, prefeitos, deputados, senadores. Há uma crise de representatividade. As pessoas se sentem enganadas pelo fato de terem eleito representantes que não estão cumprindo aquilo que elas achavam que iriam fazer ou que haviam prometido. Daí, a individualidade ter ido para rua. É um fenômeno novo, em que as frustrações individuais foram articuladas pelas redes sociais, mas as pessoas foram para as ruas motivadas pelas mais diversas razões com foco, porém na frustração da representatividade. Mas é preciso ficar bem claro que os protestos das ruas evidenciam, sem dúvida, descontentamento com o governo.

É NATURAL que um governo de esquerda sofra pressão popular?
É NATURAL que todo governo que não cumpre promessas e oferece serviços públicos cada vez mais precários sofra pressão popular.

O BRASIL está inserido no Mercosul e mantém contratos apenas com três países, já que as decisões relacionadas à economia (importação e exportação) são tomadas em bloco. O que estaria faltando para que houvesse incremento na economia nacional? Estaria ligado à pouca possibilidade de negócios com o Mercosul?
NOSSA presença no Mercosul limita a possibilidade de acordo bilateral do Brasil com outros países, como o faz o Chile, por exemplo. Posições da Argentina, e agora da Venezuela, sitiam o Mercosul no âmbito de posições ideológicas fora de contexto.

NA LINHA econômica, passando pelo social, o Governo tem insistido na ideia de criar programas sociais para amenizar a crise e reduzir as desigualdades. É o caminho certo?
OS PROGRAMAS sociais têm sua relevância. Tanto que apoiamos, no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o Bolsa Escola, hoje desenvolvido e evoluído para o Bolsa Família. Acredito que o Bolsa Família tem grandes vantagens, como retirar as pessoas da faixa da pobreza e possibilitar a compra daquilo que elas nunca pensaram em ter, como geladeira, televisão etc.. Mas, sempre defendi que os programas sociais ofereçam não somente uma porta de entrada, mas também de saída para os beneficiários, que não criem laços de dependência eterna entre os que recebem e o Estado. A distribuição de renda pública para tirar pessoas da miséria é importante, mas não pode ser a coisa mais importante de um governo. É preciso ter sustentação, e é algo que o governo do PT tem falhado. O Brasil não pode ser só o “país das bolsas”.

O SENHOR crê em alteração no cenário político, já que a população está nas ruas e exigindo mudanças?
SE VOCÊ observar, as manifestações espontâneas colocadas no Facebook, nas redes sociais, são de uma inteligência, de uma argúcia e de uma capacidade de percepção do que está certo e errado absolutamente incríveis, com poder de motivar, mobilizar e mudar. A inteligência da população brasileira está indo para as ruas manifestar sua insatisfação e está obtendo resultados. Acredito que obterá cada vez mais. O que é preciso é que haja uma sintonia entre aqueles que se submetem ao voto popular e essas insatisfações. Em relação à classe política, é preciso humildade para entender que, se quiser ser político, tem que ir para a vida pública disposto a ser intérprete da solução dos problemas do povo. Quem não considerar isso, vai pagar um preço alto e vai se submeter à vaia continuada na rua. Quem está na vida pública, tem que ter consciência de que está ali para servir e não para usufruir do cargo.

ONDE a presidenta Dilma Rousseff errou?
EM SE apresentar como administradora infalível e dona da verdade. Governa um governo inchado, com gerentes de qualidade duvidosa e pressupostos econômicos equivocados. Hoje, assistimos à volta da inflação com uma economia crescendo aos menores níveis da América do Sul. Temo que o próximo passo possa ser a volta do desemprego.

A ALTERAÇÃO relacionada ao curso de Medicina, de seis para oito anos, dos quais dois seriam dedicados pelos novos médicos à saúde pública, é a melhor alternativa para resolver o problema da falta de profissionais no interior?
A SAÍDA para resolver a crise que vive a saúde pública do Brasil está em se votar os 10% da receita bruta – e não líquida – da União para a saúde pública. Isso, sim, é injeção na veia.

NO PLANO potiguar, é possível pensar na reeleição da governadora Rosalba Ciarlini, já que o governo democrata enfrenta dificuldades?
ROSALBA é a minha candidata.  Cabe a ela decidir se quer ser candidata.

Fonte: Jornal de Fato


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