sábado, 9 de junho de 2012

‘Não é crime marcar reunião na Câmara’


O presidente da Câmara Municipal de Mossoró, vereador Francisco José da Silveira Júnior (PSD), afirmou que não participou do suposto esquema que beneficiaria empresários do ramo de combustíveis de Mossoró e que figuram como envolvidos na “Operação Vulcano”, da qual Silveira e o vereador Claudionor dos Santos também teriam envolvimento. Sobre as interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal, nas quais aparecem conversas entre ele com empresários e com Claudionor, o presidente local do Legislativo enfatizou que em nenhum momento os diálogos divulgados pela PF falam em propina ou negociata. Disse que o que conversou com Claudionor se voltou aos projetos e que, quando comentou sobre o fato dos vereadores Jório Nogueira (PSD), Lairinho Rosado (PSB) e Genivan Vale (PR) estarem de acordo, isso seria na votação do projeto de autoria de Genivan. Silveira disse também que teria marcado conversa com os empresários na Câmara Municipal e depois afirmou que tal encontro não ocorreu no Legislativo. Veja a entrevista:

 

O senhor afirmou, no Twitter, que estava inteiramente à disposição da Justiça e que provaria sua inocência. Como se dará esse processo?

Quero deixar claro, para iniciar a entrevista, que uma das minhas atividades é, além da política, que sou empresário do ramo de eventos. Em janeiro, mês em que os políticos estão de férias, estou trabalhando na praia de Tibau todos os finais de semana. Fizemos o Carnaval em Tibau e foi um sucesso. Passei os quatro dias de Carnaval trabalhando com a minha família. Eu tinha agendado viagem em março e essa viagem não foi possível em virtude de meu pai ter feito vários procedimentos cirúrgicos no coração e passou quase 60 dias. Foram cinco cirurgias. Só após ele estar bem é que a gente conseguiu fazer essa viagem, que estava agendada desde abril. Fui fazer a viagem com a minha família para descansar do Carnaval e em virtude de vir uma eleição agora, onde ficamos ausentes da família.

 

A SUA ausência de Mossoró vem sendo questionada...

DEIXAR claro que não houve vazamento de informação. Eu soube lá na quarta-feira e quando soube da notícia achava que era para retornar urgente para o Brasil. Achava que era alguma coisa relacionada ao meu pai... (Problema) de saúde. Quando soube disso fiquei bastante surpreso, pois veio de um local que eu jamais esperaria que viesse.  Com relação à Câmara Municipal, como presidente tenho o maior zelo e muita segurança. Trabalho com muita transparência. Prova disso é que fizemos transmissão ao vivo pela TV aberta, para a população acompanhar o trabalho do Legislativo. Tem o nosso Portal da Transparência que, inclusive, hoje é possível assistir à sessão da Câmara de todo local do mundo. Lá do México eu assisti à sessão pelo nosso site. Além disso, a população tem acesso à lei na íntegra. Tem tópicos e é só clicar. É mais transparência. E agora, por último, o nosso painel eletrônico que vai dar mais transparência. Realmente foi uma surpresa para mim, dos fatos que me envolveram e estou sendo investigado. Até o momento não fui acusado e ninguém foi ainda, pelo simples fato de eu receber ligação de um empresário solicitando uma reunião e eu, mostrando minha intenção nesse projeto, marquei a reunião na Câmara e no dia de sessão. Todo mundo sabe que é lotado, às 9h, e com todos os vereadores. Se eu quisesse me beneficiar teria marcado uma reunião secreta e no escritório do empresário. Marquei na Câmara e mostrando minha isenção. No dia anterior à votação do projeto, eu estava no meu carro, com meu motorista e o vereador Genivan Vale pegou uma carona comigo. Liguei para o vereador Claudionor dos Santos, que é líder da situação, dizendo que o projeto ia ser votado no dia seguinte, desde que colocasse o projeto também de Genivan. Ou seja: colocava o projeto dele (do governo) e em seguida o de Genivan, subtraindo as palavras supermercados, shopping e condomínio. Com isso, a questão do condomínio protegia o cidadão de bem na questão da segurança. Não fiz nada escondido e se fosse, não fazia na frente do meu motorista e de quem quer que seja. Foi um processo normal. Fiz reuniões com empresário e fiz com professores. Não é crime marcar reunião na Câmara e com os vereadores, para escutar as propostas e projetos e interesses dos empresários. Em nenhum momento ouvi sozinho. Inclusive, essa reunião não houve na Câmara. Depois eu soube que houve na Prefeitura e eu não participei. Quero deixar bem claro que não participei de nenhuma reunião com empresários. Quando fui procurado, marquei para a Câmara. Em relação a Claudionor, liguei para o líder da bancada, que é Claudionor, e eu estava com o líder da oposição. É normal o presidente organizar os trabalhos e pacificar. Articulei nesse sentido. O projeto que foi aprovado foi o de Genivan Vale, que corrigia as distorções.

 

NAS INTERCEPTAÇÕES telefônicas, aparece um diálogo do senhor e no qual é dito que já estaria tudo certo com os vereadores Jório Nogueira, Genivan Vale e Lairinho Rosado. O senhor se referia a quê?

O QUE acabei de dizer. Quando falei Jório, Genivan e Lairinho mostrava que a oposição concordava. Se você observar o texto, só estava tudo acertado para votar o projeto desde que colocasse o de Genivan. O da Prefeitura corrigia a distância e o de Genivan incluía supermercado, shopping e condomínio. Então, eu disse que estava tudo acertado se ele (Claudionor) aceitasse colocar o projeto de Genivan. Foi isso o que aconteceu e o projeto de Genivan foi aprovado.

 

QUANDO ocorre operação do porte da Vulcano, subentende-se que alguma denúncia tenha sido feita. O senhor tem ideia de onde possa ter surgido essa denúncia?

NÃO tenho a mínima ideia. A informação que eu tive há pouco tempo, e não estou totalmente a par do processo, mas a informação que tive é que o cartel vinha sendo investigado há bastante tempo, desde o ano passado. Foi gravado... Fizeram escutas de todos os vereadores e empresários e apenas nessas duas ligações, que foram computadas a meu respeito, não vejo nenhuma irregularidade. Na primeira eu disse que marcaria reunião na Câmara e na outra, falando com as lideranças dos partidos, da situação e oposição. A gente entende e não estou repudiando a atitude da Polícia Federal nem do Ministério Público. Acredito que eles estão fazendo o papel deles, de investigar. Também me preocupo com o preço da gasolina e também sou consumidor como qualquer um. Não sou dono de posto de gasolina e não fui autor de projeto, muito menos votei em nenhum dos dois projetos. Até porque presidente só vota em caso de empate. Então, estamos tranquilos com relação a esse assunto.

 

APESAR do senhor ter comentado sobre transparência no Legislativo, a Câmara de Mossoró teve, em períodos distintos, três acusações e dois presidentes chegaram a ser presos. O senhor não o foi porque estava fora do Brasil. Isso não arranha a imagem do Legislativo?

A GENTE espera que a população saiba identificar. Existe uma diferença grande entre uma prisão cautelar, que tem o caráter de investigação. Ninguém foi preso acusado. Essas pessoas que foram presas, foram no intuito de não se ter cruzamento de informações, para melhorar a investigação. Ninguém foi preso por ser culpado. Todos são investigados. Até que a polícia não conclua as investigações, ninguém pode acusar ninguém. Achei desnecessárias as prisões, até por serem pessoas de bem, pelo menos a meu ver são honestas e têm residência fixa. São pessoas que não têm ficha criminal e se fossem convocadas pela Justiça iriam depor e prestar os esclarecimentos sem precisar passar por esse constrangimento. Imaginem que essas pessoas sejam inocentadas e o trauma que ficará nessas famílias e pessoas. A polícia chegou de cinco a seis horas da manhã, levando tudo e a pessoa presa na presença de filhos e netos. É algo constrangedor. Mas entendo que a população está cada vez mais politizada em virtude das redes sociais, por acompanhar mais de perto a questão da imprensa. Acredito que a população vai saber separar. Até porque o foco principal é o cartel. Não é a Câmara. A Câmara foi envolvida com dois vereadores. Tenho certeza, até porque a Polícia Federal não entende como é o processo legislativo e quando eles entenderem, após os depoimentos, vão ver que a Câmara se envolveu no trâmite Legislativo normal. Não houve nenhuma gravação de ninguém falando em propinas, falando em vantagens. Acredito que a Polícia Federal vai ver isso, juntamente com o Ministério Público, e vai tomar posição. Estou bastante confiante e com a consciência tranquila. A parte que fiz foi o papel de presidente.

 

DUAS operações atingiram a Câmara: Sal Grosso e Vulcano. Na primeira, quatro vereadores não se reelegeram em consequência das investigações. Agora, vem a Vulcano, também em ano eleitoral. O senhor vê que isso possa prejudicar?

NÃO acredito. Creio que dos 13 vereadores atuais, Chico da Prefeitura e Cláudia Regina não serão candidatos, pois um é candidato a prefeito e o outro é por questões de saúde... Então, dos 11 vereadores, acredito na renovação do mandato de 10 vereadores. A Câmara vem aumentando seu trabalho. Aumentou sua produção legislativa em mais de 50% em relação aos outros anos, sem contar com projetos importantes como a Tribuna Popular, Tribuna Solidária, Câmara Cultural. A Escola Legislativa está qualificando mais de 100 pessoas por mês. Então, a Câmara vive hoje clima feliz, alegre e unido. São servidores, comissionados e vereadores. A gente não tem nenhum problema. É uma equipe trabalhando unida. Tanto que conseguimos melhorar a imagem do Legislativo e acreditamos que esse fato isolado não vai manchar a administração.

 

A CÂMARA pretende realizar alguma ação específica, já que a Operação Vulcano repercutiu negativamente?

COMO presidente, estou esclarecendo todos os órgãos. Estou à disposição da imprensa, sociedade e da Justiça. Acreditamos que não haverá nenhum problema com relação à Câmara, pois a população está politizada e sabe que o foco não é esse. Isso será esclarecido o mais breve possível. Confio na Justiça, principalmente na divina, e que isso será esclarecido da maneira mais rápida possível. Na próxima semana o meu advogado já ficou à disposição da Polícia Federal com relação ao depoimento. Na hora que eles acharem necessário e marcar, estarei lá. Acredito, não só na minha inocência, como também na do vereador Claudionor dos Santos. Em relação à questão do preço do combustível, não sei dizer por quanto eles compram a gasolina e qual o lucro deles. Nunca procurei saber e não me interessa. Se existe cartel ou não, isso está sendo investigado. A Polícia Federal faz um grande papel e é importante a sua presença na cidade, bem como o Ministério Público. A promotora Ana Ximenes desempenha sua função com muito zelo, defendendo os interesses do consumidor. Não repudio nada. Apenas acho que deveria ter sido feito de outra forma, mas o papel deles é apurar e vamos aguardar o resultado das investigações.


Fonte: Jornal de Fato

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